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The Terminal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.01.08

Spielberg de novo com um olhar mais fresco e solto, quase o olhar desses primeiros anos, em que brinca com a câmara e connosco. Em que se debruça sobre a condição humana. Em que segue os passos de alguns mestres com o afecto de um aluno brilhante. Com o prazer de um rapazinho. É assim que eu o imagino atrás da câmara neste The Terminal.

Depois de várias peripécias e inúmeros obstáculos, começamos a ver o lado inventivo e criativo, o imenso manancial da nossa estranha espécie, condensado neste homem que se vê de repente como unacceptable.

De novo aqui dois mundos em confronto, o oficial, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, da Segurança Interna,do outro o indivíduo e a sua própria sobrevivência. De um lado as imposições rígidas e acéfalas, do outro a criatividade, os neurónios a funcionar. De um lado a falta de sensibilidade e de empatia, do outro a capacidade de dar a volta à desgraça e ao azar.

Há mesmo duas cenas que exemplificam isto na perfeição. Logo no início, a entrevista verdadeiramente estúpida do burocrata do aeroporto. Aqui Navorski ainda não domina o inglês e utiliza as poucas palavras que sabe para responder às perguntas burocráticas, yes, New York, keep the change, Ramada Inn eos nomes de uma rua e de uma ponte. Verdadeiramente risível a completa ausência de comunicação nesta situação caricata. Aqui pensei em Chaplin, sobretudo quando o burocrata pega no seu lanche para exemplificar a situação no país de Navorski, a Krakozhia, e como isso o transformara num apátrida de um dia para o outro.

Outra, quando já o nosso Navorski vive neste terminal há uns meses e um outro passageiro, igualmente de um país de Leste e que por azar fez escala naquele aeroporto, vindo do Canadá, quer evitar que lhe confisquem os remédios para o seu pai doente. O nosso Navorski é chamado como tradutor. Mas como traduzir o desespero deste passageiro para burocratas que lhe querem ficar com os frascos? Como traduzir a vida de um pai amado para linguagem de impressos e de leis estúpidas? Como traduzir a própria vida de pessoas reais para mentes formatadas? Navorski consegue-o, depois de uma situação pungente, o passageiro a implorar de joelhos e a ser manietado pelos seguranças. Há uma luzinha numa falha linguística, de uma troca de palavras, de “pai” para “bode”. É que Navorski já aprendeu, nesta altura do campeonato, as minudências de mais uma lei estúpida: só são confiscados os remédios para pessoas, se forem para animais podem seguir. Há aqui um rasgo filosófico, quase nos lembra Camus… O passageiro vem agradecer ao nosso Navorski e aqui temos a humanidade inteira naquele abraço, a capacidade de empatia e de gratidão, de sacrifício também, porque Navorski viu aumentada a hostilidade do burocrata. Mas deu-lhe a volta! E isso também lhe dá dignidade e o respeito dos seus novos amigos. E estes novos amigos já são quase todos os funcionários do aeroporto e uma hospedeira de bordo por quem se apaixona.

Spielberg acaba por nos mostrar que a humanidade está para além das leis estúpidas, das fronteiras impostas, isto é, enquanto houver inteligência e criatividade, neurónios humanos vivos!

Nova Iorque representa uma assinatura de um saxofonista para o nosso Navorski, do seu amado jazz, e amado pelo seu amado pai. Ele faria o mesmo por mim, tinha dito à amiga. E pelo caminho tocou as vidas de muitas pessoas reais, as mesmas que se vêm despedir, que o acompanham até à porta. Como uma grande família. É impossível não ver Capra aqui a sorrir-nos…

I’m going home… diz o nosso Navorski já no yellow cab.

Em The Terminal vejo o verdadeiro cinema. Está lá o essencial. Misto documentário misto poema, linguagem metafórica e filosófica, diálogos depurados, inteligência, criatividade, humor. Vejo Chaplin, Jacques Tati, Capra, Wyler, John Ford… Vejo o grande amor ao cinema. E vejo a magia de Spielberg, a sua frescura dos tempos iniciais, o seu lado rapazinho a brincar com a câmara. Uma força da Natureza. Um talento único.

 

 

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publicado às 16:30


7 comentários

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De Pedro Neves a 14.01.2008 às 10:13

Olá Ana,

Olhando para os arquivos, passa por aqui só de vez em quando, e deixa sempre interessantes críticas.

Está em destaque no SAPO, em http://blogs.sapo.pt e http://www.sapo.pt.

Parabéns e bons filmes :)

Pedro
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 17.01.2008 às 17:08

Obrigada, Pedro! E obrigada Equipa do Sapo!

É sempre com imensa alegria que escrevo sobre os filmes que me impressionaram.
Spielberg está entre os meus realizadores preferidos e isso nota-se nos textos.
Espero que gostem igualmente do post "O eterno Verão em Spielberg" que coloquei há uns meses.

Obrigada pela vossa mensagem tão simpática!
Bons filmes para todos!!!
Ana
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De meldevespas a 14.01.2008 às 11:45

Este é realmente um magnifico exemplar daquilo que um bom filme deve ser!
E o Mr. Spielberg bebeu com toda a certeza nessas fontes todas de que falas, só pode! Para depois nos poder dar pura poesia com este terminal.
Amei este filme.
Parabéns pelo destaque
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 17.01.2008 às 17:14

Obrigada, meldevespas!

É uma alegria para mim partilhar o amor pelo cinema!
Sim, Spielberg voltou ao ânimo dos primeiros tempos!
Os seus temas são sempre à volta da liberdade individual, mas a alegria e a irreverência voltou!
rio_sem_regresso
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De herewithme a 14.01.2008 às 13:28

Já tenho a curiosidade aguçada, tenho que tentar ver esse filme... Segundo a tua critica parece que Spilberg se voltou a revelar como dantes... Não posso perder!!!
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 17.01.2008 às 17:17

Obrigada, herewithme!

Bem, é a minha opinião. Mas eu sou suspeita. Adoro Spielberg, sobretudo o dos primeiros filmes!
Já agora, se quiseres lembrá-los, escrevi sobre eles num post há uns meses atrás, "O eterno Verão em Spielberg".
Espero que gostes do "The Terminal".
rio_sem_regresso
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De Anónimo a 14.01.2008 às 16:14

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